olho para um lado, olho para o outro, suspiro e baixo a cabeça. ando alguns passos e volto a olhar para os dois lados, esperando encontrar alguém, mas, infelizmente, todas as pessoas têm as mesmas cores, o castanho, o marrom, o preto. aqui não é colorido como lá, aqui é quente e a luz laranja do sol faz com que as poucas roupas que as pessoas usem sejam coloridas enquanto suas peles escurecem. as vestimentas não ajudam a causa de tantas e tantas pessoas que vejo todos os dias, seja enquanto ando de carro, pela rua ou olhando fotos no facebook de outrem.
aqui as perspectivas são cinzas, as pessoas são marrons, os carros são prateados, todos!, as roupas são azuis claras e brancas, os olhares não têm o devido brilho e todos tentam se esconder da rua, com receio do calor e, porque não, de olhar para a grande feiura que existe deste lado do equador.
olhando para a tela desse computador, eu me escondo um pouco de verdades que não quero ver e do mundo horroroso que foi posto como condição para mim. eu escapei por cinco meses, míseros cinco meses, deste inferno feito de laranjas, marrons e cinzas, contemplei todos os tons e vi um arco-íris, algo que só imaginava em sonhos e devaneios. contemplei os amarelos, azuis, brancos, vermelhos, verdes, verdes e verdes e, por que não, também os marrons e os laranjas e os cinzas. lá eu era mais completo.
o que torna interessante o fato de que, por saber da existência de todo esse espectro cromático, ao contemplar um mundo de cor ao invés do cinza alaranjado daqui, ter sido mais completo enquanto eu estava lá me tornou muito mais incompleto quando estou aqui.
por estar incompleto, por estar quebrado, eu não percebo que vocês também olham para o lado, olham para o outro e suspiram. a diferença é que não baixam a cabeça e sim a levantam, onde o suspiro que antecede é de afirmação e alegria, uma conformação burra com o que foi imposto a vocês. então, eu olho para todo esse laranja, todo esse marrom, todo esse cinza e, enquanto vocês vêem o arco-íris justamente aí...
...eu acho tudo muito sem graça.
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