Por que não consigo esquecer o passado? Por que fico remoendo e voltando a ele constantemente, me arrependendo das escolhas que fiz, das coisas que não disse, dos sentimentos que perdi, dos sorrisos esquecidos? Fico preso e o ontem me assombra, como um espectro esbranquiçado com mãos gélidas e magras, sussurrando vermes em meu ouvido e me prendendo em seu abraço congelante.
E aqui estou, a visão de um homem derrotado por suas próprias experiências. A barba comprida, as olheiras, o cabelo desgrenhado, a mancha de pó de macarrão instanâneo na camiseta, o tênis desamarrado no pé. E o quarto, desarrumado, com papéis por todo lugar, revistas em quadrinhos em cima da cama, roupas no chão, papeis de chocolate e cinzeiro carregado.
Imagina-se, com tanto entulho, que estaria quente aqui. Pelo contrário. Está mais frio do que nunca. E eu não entendo porque não consigo me desprender, não entendo porque sofro tanto por conta do que já passou. Talvez seja porque ultimamente venho percebendo que passei de meu ápice?
Certas pessoas encaram tal realização de maneira perene, serena e, muitas vezes, até bem vinda. Por que eu também não posso ser assim? É sério, estou cansado de sofrer todas as noites, saber que preciso me movimentar e simplesmente não conseguir.
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