algum tempo depois, eu me percebo em outro lugar.
aqui o sol bate apenas pela manhã, de noite faz muito frio e todos os móveis estão cobertos com lençóis brancos para que sejam protegidos de alguma coisa que não sei bem o que é. as plantas, que um dia foram cheias de vida, estão todas secas mas, graças as janelas ligeiramente abertas fazendo o vento cantar através delas, o cheiro de morte não impregnou. na lareira ainda existe um pequeno rastro das cinzas de outros dias mais felizes.
minhas mãos passam por entre os delicados lençóis enquanto vou andando por esse ambiente estranho e hostil. coloco as mãos dentro do bolso, tiro de lá um livro - daqueles pequenos que cabem na palma da mão - e experimento sentar em uma das poltronas que existem nessa sala alta e fantasmagórica.
a cadeira reclama e range conforme eu sento, como se me dissesse para sair logo dali. eu resolvo não ouvir. eu nunca fui bom nisso mas não por não ter capacidade, e sim porque ninguém é. tento ficar um pouco mais confortável enquanto abro o livrinho para ler e esperar o tempo passar até a noite chegar. eu não sei exatamente o que a noite vai me trazer, mas algo me diz que será bom.
o livro é um daqueles que tanto gosto - guerras medievais, ocultismo, mitologia e conflitos políticos. conta a história de um rapaz injustiçado pelo tempo e de como seus feitos no meio de uma guerra entre dois feudos mudaram a história sem que seu valor fosse realmente reconhecido na época. ou ao menos, até agora foi o pouco que compreendi do livro. ele parece nunca acabar, como uma sinfonia onde o autor resolve colocar mais notas conforme a orquestra vai tocando.
quando percebo, acordo e já é noite, com o livro encostado no meu peito e a poltrona mais silenciosa, já acostumada com meu peso. está muito frio e minha jaqueta sozinha parece não dar vazão. parou de ventar e os fantasmas não estão mais aqui, pois já se alimentaram das cinzas da lareira. o vento também levou todas as folhas secas.
estamos, neste lugar estranho, eu, um livro e um grande espaço vazio demais comparado ao que já houve aqui. coço um pouco minha cabeça, pois ela não parece estar achando o motivo que me fez parar aqui.