Monday, September 29, 2008

volta e meia o passado vem me assombrar. estende seus braços esguios e esqueléticos, seus dedos longos e gélidos, e me encosta os ombros. olho para trás, finjo ser assombração, mas não consigo. o capuz preto encosta em minha orelha, e sinto frio dos pés à testa. sussurra alguma blasfêmia em meu ouvido, algum pensamento ruim verbalizado, e me sinto pior ainda.

seu braço direto, negro, gentilmente sai de meu ombro e, num movimento abrupto, enterra-se em meu estômago, apertando-o, contraindo-o, fazendo-me retorcido; o esquerdo fica sobre minha têmpora, causando-me náuseas ainda maiores, atrofiando meus vasos sanguíneos, de maneira que fico rígido e preso.

morde-me os sentimentos de fome, os sentimentos saudáveis. arrepia-me e deixa-me mais doente do que realmente. as relações parecem-me cada vez mais distantes diante dessa prisão de ébano, e volto a ser um pequeno garoto, um adolescente, preso.

eu gostaria de poder sair e viver num mundo onde eu pudesse criar tudo. mas isso seria a perdição.

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