Wednesday, January 18, 2006

sinto-me sozinho muitas vezes. fumando um cigarro quieto em casa, depois de um dia improdutivo como todos os outros de minha vida. nem ao menos uma cerveja solitária posso me conceder - aqui está tudo vazio e a queda é iminente. sinto o frio do vento que vem da varanda aberta atingir-me nos pés e um pequeno frio desagradável se sucede na espinha. lembro-me das promessas que fiz a mim mesmo, lembro-me que o tempo é curto e vejo que me canso antes mesmo de começar.

já fui alguém bem mais completo. agora a memória dói e insiste em não funcionar, e as luzes da cidade não parecem mais se importar com o que sou - me deixam quieto, como se eu precisasse fermentar no esgoto que estou criando dentro de meu próprio templo. sinto-me cada vez mais confuso e cada vez mais disposto a não aceitar algumas verdades que vieram chegando quietamente, sem que eu desse bola para elas.

explode, explode, explode.

e ao ver-me coagulando sentimentos do passado, me encontro um cara que simplesmente não quer fazer isso. quero continuar arracando a casquinha para que sangre mais, mas a dor me proíbe. e fico parado. tanto, mas tanto tempo, que agora o que existe é apenas a cicatriz e não dá mais para tirar a casquinha. sinto-me incapaz, como nunca me senti antes. o sucesso escapa das minhas mãos como água no deserto.

e no instante que o rock para de tocar no som, eu coloco de novo. e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, numa repetição representativa de meus próprios sentimentos e postura frente à vida. uma escolha que nunca deveria ter sido feita, uma personalidade que nunca deveria ter vindo à tona, um corpo que construí à base de destruição psicológica, lacerando a alma em busca de uma inspiração que, talvez, nunca tenha realmente existido. e isso sem contar o sexo solitário que faço e depois o arrependimento. sou desprezível e talvez por isso eu simplesmente não consiga passar o tanto de amor que tenho aqui dentro.

talvez eu não devesse mais me esconder. talvez só assim eu seja uma boa pessoa. aquela pessoa que as pessoas ligam todo dia. nem que seja só uma ou duas, alguém. mas eu me sinto diferente como um todo.

e tudo parece parar de funcionar junto de minha cabeça. até meus olhos se esquecem de chorar, meu pênis esquece de sentir tesão, minhãs mãos esquecem o lá maior. e talvez tudo isso seja um engano. talvez meu corpo esteja me dizendo isso, dizendo que escolhi o caminho errado.

o único problema é perceber tarde demais e não querer voltar atrás por ficar preso à esperança que um dia lhe foi tão reconfortante, como aquela tristeza que um dia você sentiu e pôde segurar-se nela como um pilar. é como estar viciado em alguma coisa e naquilo estabelecer uma relação de troca.

agora, os cigarros não me fazem mais companhia.

eu queria ter forças de prender algumas pessoas à mim, simplesmente porque preciso delas. mas esses pensamentos me minam, e eu sou rancoroso - cada vez mais sinto que eu mesmo me destruo. e talvez o esteja fazendo com esse texto, e até em publicar isso.

eu fiz todas escolhas erradas a partir do momento em que aprendi aquele mi menor no violão ao invés do maior.

1 comment:

Will & Marie said...

Está na hora de você fazer uma re-leitura de uma certa carta que te entregaram tempos atrás. E parece que foi a tanto tempo...


"luzes da cidade não parecem mais se importar com o que sou" - não se preocupe com isso, o mais divertido sempre é quando elas apagam mesmo!


Beijos, Felipe.


marie.